“Um homem chamado Alfredo”

Meu vizinho matou-se no início desta semana. Não sei se o nome dele era Alfredo, mas o poema do Vinícius e a música do Toquinho lhe descreviam a contento, pois também não sei o seu sobrenome ou qual era o seu rosto. Só ouvia o som da sua voz irritada, esganiçada e ranzinza. Ele era idoso e se jogou da janela do segundo andar, sobre os carros usados e estacionados na calçada do nosso condomínio.

Do meu apartamento é possível ver a sua cozinha congelada desde a segunda-feira (talvez outro dia, não tenho mais a noção do tempo). A garrafa de água mineral sobre a bancada de madeira, o pano de prato escurecido balançando no varal da área de serviço. A toalha verde jogada sobre a porta do box do banheiro. A janela de um dos quartos, que dava para um dos meus quartos, esquecida aberta.

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Eu não gostava de Alfredo, mesmo sem conhecê-lo. Detestava que ele assistisse todos os telejornais da Rede Globo no volume máximo, forçando-me a consumir os seus hábitos diários. Ouvia suas discussões infinitas com a esposa, também idosa, de quem nunca ouvi a voz. Após ser demitida (sim, fui demitida no início do ano sem maiores explicações além de que ‘a vida é assim mesmo’), consegui perceber que ele nutria simpatia pelo atual presidente do Brasil.

Interessante é que poucos dias antes, a administração dos prédios onde vivo soltou uma nota para todos os moradores de que um primeiro caso confirmado da Convid-19 foi registrado no condomínio. Quando ouvi os gritos do neto do Alfredo, que de vez em quando aparecia para vê-los, achei que ele tinha morrido em virtude do vírus. Mais uma morte em casa, sem socorro. Mas surpreendentemente, no dia seguinte, fui informada por uma vizinha de que ele resolveu por termo à própria vida.

“E caiu em cima do carro do meu namorado”, lamentava. Acho que mais pelo carro de que pelo Alfredo. Afinal, quem quer saber do Alfredo? Velho, inútil, trabalhoso, mal criado, provavelmente deprimido, quase repugnante. Ao informar à minha ex-sogra que meu vizinho tinha cometido suicídio, ela soltou: ‘Graças a Deus’. Depois emendou: ‘Pelo menos não foi pelo vírus, né? Mas de qualquer forma, evitem sair de casa. Ponha um pano de chão na fresta da porta, com álcool, para evitar a poeira de fora. Ele era vizinho de porta?’.

É Alfredo, você não fará falta. Nem o Gordinho do Toicinho noticiou sua morte, o que torna menos crível a possibilidade dela ser real (cadê os vizinhos sacando os celulares para fazer as fotos do corpo desengonçado, sangrando, sobre o Pálio amassado?). Mas sua casa vazia, o rastro da sua existência banal, me incomoda. Quando virão fechar essa janela? Quando eu vou conseguir parar de olhar para a sua cozinha através da minha e comparar as nossas solidões?

Vou pensar o seguinte, Alfredo: você sobreviveu. E a dor, talvez causada pelo Sérgio Moro, te fez agir de forma impensada. Mas como a altura foi pequena e o Pálio era macio, você está vivo. E agora a tua família te liga para saber como se sentes. E ouve seus disparates com paciência. E os seus vizinhos não te ignoram e até sabem o seu nome. Todo mundo corre para autografar o gesso da sua clavícula. Não faltam piadas de como a sua cabeça dura foi providencial. Aí, Alfredo, você volta para casa junto com o neto e com a esposa, joga o lixo fora, recolhe o pano do varal e a toalha do box, e cerra a janela do quarto, restabelecendo meu sossego. Depois, entra em um carro confortável, e vai para a fazenda da sua filha no interior da Bahia. Lá tem rede e pega muito mal o sinal da televisão. Vocês terão muito espaço, muito ar, muita árvore e as brigas, especialmente com a mulher, diminuirão drasticamente. E quem sabe você redescubra que a ama?

Seja feliz em seu novo lar, Alfredo. Estou torcendo por você.

——

Um Homem Chamado Alfredo
Vinicius de Moraes/Toquinho

O meu vizinho do lado
Se matou de solidão
Ligou o gás, o coitado
Último gás do bujão
Porque ninguém o queria
Ninguém lhe dava atenção
Porque ninguém mais lhe abria
As portas do coração
Levou com ele seu louro
E um gato de estimação

Há tanta gente sozinha
Que a gente mal adivinha
Gente sem vez para amar
Gente sem mão para dar
Gente que basta um olhar
Quase nada
Gente com os olhos no chão
Sempre pedindo perdão
Gente que a gente não vê
Porque é quase nada

Eu sempre o cumprimentava
Porque parecia bom
Um homem por trás dos óculos
Como diria Drummond
Num velho papel de embrulho
Deixou um bilhete seu
Dizendo que se matava
De cansado de viver
Embaixo assinado Alfredo
Mas ninguém sabe de quê

(não tinha onde postar isso aqui, então, postei aqui)

(não tinha onde postar isso aqui, então, postei aqui)

“Um homem chamado Alfredo”

Tenho que ir

Foi num mês de agosto que tudo começou. E não acabou. E nunca vai acabar, porque toda essa dor passou a ser parte de mim. Deveria ser uma parte pequenininha, anêmica, desvanecida após quatro anos, mas… não é. Tem momentos que dói como antes. Outros, mal lembro. E para esquecer, de vez, preciso me despedir daqui. Desse cantinho tão especial, mas que me faz reviver todos os enganos, todas perdas, todas as lacunas ainda não preenchidas.

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Uma das coisas que também acabava retendo-me aqui eram os pedidos de ajuda. De mulheres que desconfiavam que os parceiros são gays (através do rastros mal disfarçados que só Freud explica). De outras que recebiam a notícia no colo, como uma banana de dinamite acesa. De outras, como eu, que ainda se sentem sem rumo para lidar com uma realidade insuspeita e que nunca foi convidada. São tantas, tantas irmãs, com histórias tão diferentes e, ao mesmo tempo, muito iguais. Histórias de abandono, loucura, espanto.

Eu ouço, acolho, conversamo um pouquinho. Eu tento dizer o que aprendi. A maioria sempre busca justificar que está vivendo algo diferente. Torcem e retorcem os corações e mãos por milagres, por finais diferentes. E somem. Não sei como resolvem as próprias histórias. Só torço por todas elas, para que consigam recuperar as próprias vidas, o auto amor, a fé. A todas asseguro: ‘A culpa não é sua. Você não poderia fazer nada para mudar isso’. E vão, minhas queridas, em busca das suas respostas. Espero que tenham mais sorte que eu…

Também quero esquecer terapeutas, psicólogos, advogados, psiquiatras, xamãs, videntes, padres, pastores, pais de santo, autores de autoajuda. Não quero ligar para métrica, números de acesso ou o enigma de porque tantas pessoas nos Estados Unidos liam os meus textos. Quero lembrar desse blog como um sonho, do qual finalmente me forço a acordar. Porque, agora, só quero curtir o meu filho, que este ano completa 11 primaveras. E é lindo. E está mais alto que eu. E quero amar os meus amigos, minha família e o mundo.

Aqui aprendi tantas coisas inúteis. Tantas. Como, por exemplo, achar que registrar em um blog a própria dor (e descobertas) traria clareza no traçar dos passos seguintes. Pode até funcionar com os outros, mas comigo não deu certo. Só registrei as voltas que dei para retornar ao mesmo local de onde parti. E reler coisas que escrevi quando estava muito mal, ou coisas que escrevi achando que tudo ia simplesmente se resolver, sei lá, mexe com tudo. E me tira a paz.

Então, eu só vou aceitar. As coisas são como são. O outro, que está ao nosso lado, é dono de si. E pode ir porque cansou. Porque quer viver outras coisas. Porque morreu. Porque tinha que ir. E a gente tem que aceitar. E aprender a se reinventar, sem desculpas, para os dias que prosseguem a nascer. Por tudo isso, preciso ir. Acho que vou criar outro blog, para falar de comida, Tinder, economia doméstica, envelhecer, livros, filmes, arquitetura, filosofia, solidão, paixão, tesão e morte.

Às minhas queridas, queridas, queridas irmãs na dor, tenham fé. Tudo se resolve. A resposta vem de alguma forma. Sempre.

Adeus, pessoal!

Tenho que ir

Yesterday e todo o amor que houver nessa vida

Ainda noiva do ex, ele me convenceu a fazer uma segunda graduação. Porque nós iríamos morar nos Estados Unidos e, provavelmente, trabalhar como redatora fosse algo impossível em outra língua que eu não dominava (e nem domino). Lá fui eu estudar Design Gráfico (e levei o curso por três semestres). Foi uma experiência maravilhosa, pois foi naquela faculdade que tive o melhor professor de História da Arte possível de encontrar na cidade onde vivíamos (e onde moro atualmente). E os planos saíram exatamente o contrário do que o planejado, enfim…

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Mas isso tudo foi para falar sobre uma colega que tive ao cursar DG. Ela era uma moça magra, simpática, tranquila. Ao terminar a aula, meu noivo ia me buscar, enquanto o marido dela sempre chegava no horário marcado, com a filhinha de ambos no carro. Nós falávamos sobre as dificuldades de estudar e trabalhar, sobre como nossos colegas eram imaturos (éramos as mais velhas da turma, ambas prestes a entrar nos 30 anos). Enfim, conversa jogada fora para passar o tempo.

Um dia, no entanto, um carro estacionado em frente ao prédio onde estávamos começou a tocar uma música. Eu não lembro qual, como também não lembro o nome da moça. As lágrimas começaram a escorrer e ela tentou disfarçar. Eu a abracei e perguntei o que estava acontecendo. Ela disse que aquela música era a música dela e do marido. E que ao ouvi-la, ela não conseguia segurar o choro. Eu sorri e falei: ‘Puxa, você ama mesmo o seu marido. Que lindo!’. Ela sorriu e disse: ‘Meu marido morreu’.

Em seguida ela me contou que o ‘marido’ dela, o primeiro marido, havia morrido cinco anos antes, em um acidente de moto. Que era o grande amor da vida dela. E que depois ela encontrou outra pessoa, casou e tiveram uma filha, mas o amado, o que lhe dava completude, enfim, ‘a pessoa’ da vida dela, tinha partido sem nunca poderem se despedir. E que nunca mais ela ouviria a voz dele, sentiria seu abraço, que ela não lembrava qual tinha sido o último beijo entre os dois (e como isso faria sentido para mim muitos anos depois).

Pouco depois, o segundo marido e a filhinha chegaram para buscá-la e ela se foi. E nunca mais tocamos no assunto. Mas foi a partir desse dia que eu descobri que quando uma pessoa morre literalmente, ou apenas deixa de fazer parte da vida de outra, o amor compartilhado não some junto. Não segue junto no caixão ou com a mala. Ele te assombra e devora. Ele faz o choro ser infinito. E você tenta de todas as formas fugir, abdicar, substituir. Mas parece que para muita gente isso é impossível.

Reencontrei um amigo que não vejo há mais de 30 anos. Tivemos um rolinho, sei lá, uma coisa esquisita, porque ele é, de fato, um cara esquisito. Mas gente boa. E neste ponto da história, cá estou eu, divorciada, sem rumo e cheia de amor e dívidas para dar. Ele, viúvo, com dois filhos, claramente sem rumo também (e, pelo jeito, dívidas), mas com todo o amor que poderia direcionar para outro ser humano (eu?) completamente bloqueado pela memória da esposa maravilhosa que teve e que perdeu para o maldito câncer…

Nós bem que tentamos. Ele ouviu falar que eu estava na cidade, me pesquisou numa rede social, enviou um recado e voltamos a conversar. No início, minha intenção era só de reatar a amizade. Mas ele jogava uma coisa aqui, outra acolá. Depois, descobrimos que ambos estávamos namorando. Uma semana após ter retomado a conversa com ele, rompi o namoro (que já queria acabar há meses). Alguns dias depois, ele me dá a notícia que rompeu com a namorada com a qual estava há um ano e meio.

Pronto. Foi o sinal. Era porque, óbvio, deveríamos ficar juntos. Des-ti-no. Desde então, as conversas diárias, vezes bem-humoradas, algumas picantes, outras cansadas, vão rareando. E o tal jantar de reencontro não sai nem com reza brava. E quando paro para pensar, o racional é que ambos queríamos desculpas para interromper relacionamentos que não acrescentavam em nada às nossas vidas. Não por falta de mérito das pessoas, mas por indisponibilidades nossas. Por esperarmos, talvez, uma perfeição que nem nós possuímos e que os nossos parceiros, com certeza, também não tinham. Mas é aquela coisa do amor, né? Cobre um milhão de pecados.

Todas as vezes que ele quer falar comigo, para iniciar uma conversa, após dias seguidos sem nem uma palavra trocada, envia um vídeo. Ambos adoramos rock. Ambos vivemos lutos. Ambos temos que criar nossos filhos sem as pessoas que pensávamos que estariam ao nosso lado até o fim. Ambos passamos a ver o amor com um certo ceticismo. Ambos encaramos certos assuntos com uma maior liberalidade que outras pessoas. Mas é só. Somos apenas pessoas (bem como a ex-colega de DG) que tiveram a sorte de amar muito, e por um motivo ou outro, fomos abençoados por não testemunhar nossos amores definharem no tédio ou na indiferença. Somos os tragicamente sortudos…

Enfim, para retomar a conversa, ele enviou um vídeo de um filme que aqui no Brasil estreia em junho. Ah, ele é Beatlemaníaco. Do tipo que gosta de todas as músicas do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (inclusive as que são horríveis). E eu prestei finalmente atenção à letra de Yesterday (a versão do filme, cantada pelo ator). E senti uma tremenda compaixão por ele e pela minha ex-colega. O marido que eu amei está morto, mas o homem que continuou a viver a própria vida facilitou muito a minha ao não permitir que eu o colocasse num pedestal. Ele se foi, vivo, e não levou todo o meu amor com ele. Por isso ainda sou capaz de amar. E talvez consiga amar alguém ainda mais do que amei ao ex.

Já os meus pobres amigos, como superar esse luto? De perder alguém na flor da idade, com tanto ainda pra ser feito e dito? Eu não tenho a menor ideia… E a vida é assim, né? Uma caixa de surpresas atrás das outras. O que me faz pensar: é melhor nunca amar e, assim, nunca correr o risco de sentir a dor dessa perda? Ou é melhor se arriscar e correr o risco de partir o coração para sempre? Eu sempre vou apostar na segunda opção. Sempre.

Ontem
Yesterday

Todos os meus problemas pareciam tão distantes
All my troubles seemed so far away

Agora parece que eles estão aqui para ficar
Now it looks as though they’re here to stay

Eu acredito em ontem
Oh, I believe in yesterday
De repente
Suddenly

Eu não sou metade do homem que costumava ser
I’m not half the man I used to be

Há uma sombra sobre mim
There’s a shadow hanging over me

Ontem veio de repente
Oh, yesterday came suddenly
Por que ela teve que ir, eu não sei
Why she had to go, I don’t know

Ela não diria
She wouldn’t say

eu disse algo errado
I said something wrong

Agora eu anseio por ontem
Now I long for yesterday
Ontem
Yesterday

O amor era um jogo tão fácil de jogar
Love was such an easy game to play

Agora preciso de um lugar para me esconder
Now I need a place to hide away

Eu acredito em ontem
Oh, I believe in yesterday
Por que ela teve que ir, eu não sei
Why she had to go, I don’t know

Ela não diria
She wouldn’t say

eu disse algo errado
I said something wrong

Agora eu anseio por ontem
Now I long for yesterday
Ontem
Yesterday

O amor era um jogo tão fácil de jogar
Love was such an easy game to play

Agora preciso de um lugar para me esconder
Now I need a place to hide away

Eu acredito em ontem
Oh, I believe in yesterday

Até a próxima!

Yesterday e todo o amor que houver nessa vida

Pílulas

A sanidade é uma linha tênue, porque é difícil entender o que é, de fato, normal. Se existisse um gráfico de normalidade através do qual pudéssemos pontuar, por exemplo, o que causa mais dano, quantos pontos teria a alienação escapista e quanto valeria o delírio psicótico? Aí, no caso, adicionaríamos uma nova pílula (eu sugiro amarela, a da loucura) à vermelha (realidade) e azul (ilusão) de Matrix. Entre a escolha consciente de ser inconsciente e a loucura real, se pudesse existir uma escolha, qual seria a sua?

Eu tenho tentado viver na realidade ilusória (escolhi a pílula azul). Mas não consigo. O que me traz para a minha vida são, todos os meses, as ligações persistentes das empresas de cobrança lembrando-me que não cumprir minha parte do contrato contra um banco ou uma operadora de plano de saúde é uma péssima ideia. Aí eu procuro artigos para corroborar como historicamente eu, mulher, estou em desvantagem e tenho mais dificuldade de lidar com a ‘parte prática’ após o término de uma relação de longo prazo.

No que isso me ajuda a pagar as contas? Em nada. Só perco mais tempo.

A sensação de completo fracasso passa a ser uma coisa trivial. Meio que você já está no chão mesmo, então, o negócio é não levantar até soar o gongo e o juiz declarar o nocaute. Agora, porque diabos você continua entrando no ringue? Por que lá no fundo, lá no fundinho mesmo, há uma veia de lutador. Ou a crença absurda numa fantasia de que as coisas podem mudar de uma hora para outra. Como o Barão de Münchhausen, sabe? Depois de um tempo você não sabe mais o quanto dramatizou as situações que viveu ou até se de fato elas ocorreram. Mas você sabe que vai acabar bem, basta ter fé…

Então, escapismo ou delírio?

E eu estou apavorada. São quatro anos de completa paralisia. Quero muito estudar, mas não vejo como fazer isso e trabalhar. Quero pagar minhas contas atrasadas, mas não vejo como fazer isso ganhando o que eu ganho. Quero aumentar minha autoestima, dando um trato em alguns defeitinhos que a idade só amplifica, mas como parar o tempo e a morte? E será que para todas as questões só existem duas opções de respostas? Há outras vias? Outras vidas? Outras pílulas?

Enfim, fico me provocando: “Faça algo!”. Pague suas contas e negocie suas dívidas como qualquer humano normal que decidiu viver nesse mundo de coisas inventadas. Seja independente, por mais que sua vida esteja atrelada ao humor e percepções da realidade de uma criança de dez anos que você simplesmente idolatra e aleija afetivamente. Tenha planos reais, como estudar coisas que não fazem a menor diferença e que morrerão com você, se tiver sorte, dentro de poucas décadas.

Escapismo ou delírio? Pensamento mágico ou esquizofrenia? Cínica ou hedonista?

Ainda dá tempo de descobrir?

Até a próxima…

Pílulas

Mariana e as memórias

Estou me forçando a escrever. “Vai lá, moça, você consegue. Você ainda consegue!”.

Poucos dias antes de completar 47 anos, conheci minha nova psiquiatra. Uma jovem médica chamada Mariana, que ouviu a descrição do meu sofrimento de forma compenetrada e empática. Contar a história pela centésima vez para um profissional e esperar a confirmação do diagnóstico de sempre não é exatamente emocionante…

– É isso, doutora. Estou sem forças, me isolando cada vez mais e tornando a existência de quem me rodeia um inferno.

Silêncio. Sorriso, assentimento e a pergunta:

– Por que demorou tanto para buscar ajuda médica?

Silêncio. Olhar para o teto, puxando as lembranças, e a resposta:

– Porque cansei de estar doente e de tentar me curar. Porque minhas últimas experiências com psiquiatras, psicólogos, paranormais e pessoas não têm sido boas.

Sorriso e pergunta:

– E valeu a pena esperar passar, mesmo já sabendo que ficar sem tratamento só piora o sofrimento?

Olhar direto, sem piscar, e resposta:

– Pois é, nunca passa. E não quero mais esperar. Quero ir.

Sorriso e garantia:

– Então, vamos. Vamos cuidar de você, certo?

Suspiro. Ah, Mariana, vamos começar a contar?

Saí de lá metade crença e metade descrença (meu código genético), com receitas novas de substâncias nunca experimentadas.

Isso ocorreu há seis semanas. E eu estou melhor, muito melhor.

Desde então, consegui passar meu aniversário em um hospital (acompanhando uma criança que escorregou em um prédio público, bateu a cabeça e desmaiou); consegui ajudar minimamente uma família que viveu um trauma horroroso; consegui lidar com o ex, que voltou a colocar nosso filho em modo ‘castigo remoto’ pela enésima vez; consegui responder ao meu pequeno, com charme e elegância, ‘o que é masturbação?’; consegui terminar (há poucos dias) um namoro de cinco meses que não fazia sentido (a libido se mandou junto com a angústia); consegui doar coisas e jogar outras (distímica, sim; horder, nunca!); consegui tentar pedir desculpas a uma amiga amada a quem magoei com o meu último texto; voltei pro grupo da balbúrdia quarentona no WhatsApp; consegui usar salto alto; consegui dar conta de algumas tarefas que estavam encostadas há um bom tempo.

Mas a jornada é contínua. E é sempre bom relembrar. E tentar encontrar sentido em cada passo, por mais que pareçam carentes de significado. Desde mudar de cidade sem planejar direito até se dar conta de que o cabelo finalmente cresceu. Desde perceber, durante uma caminhada, que você impede seu filho de enfrentar as próprias lutas (o que o tornará para sempre o mais fraco do bando) até admitir e aceitar que o pensamento do outro sobre algo (inclusive contrário às suas crenças) é uma ponte, não um ponto final.

Acordar sem me sentir aterrorizada é bom. Ficar bem na minha solitude, melhor ainda. Dá vontade de ‘querer’ de novo. Mas um querer diferente, sem ilusões, ciente dos próprios vícios, virtudes, poréns, limites, mudanças.

Hoje, quero coisas mais simples. Como usar o vestido verde florido e os brincos com cristais que parecem pequenos globos (que comprei há quase três anos); quero terminar os livros que larguei pela metade; quero arrumar, finalmente, a minha casa, para que ela volte a ser um lar, não o galpão de uma transportadora; ainda quero aprender a nadar, andar de bicicleta, voltar a estudar, morar no Canadá, entender o final de Game of Thrones (que gostei, desgostei, gostei e desgostei) e nunca esquecer da máxima ‘budista-renatista’ de que toda dor nasce do ato de desejar.

Bom, estava com medo de ter perdido para sempre a inspiração, de nunca mais escrever. Mas não vou. A Mariana relembrou que ainda posso tentar. Viva a Mariana!

Até a próxima!

Mariana e as memórias

Entre o que eu quero receber e o que você quer me dar (e vice-versa)

Não sei quando as coisas ficaram tão complicadas. Aliás, talvez elas sempre tenham sido o que são, e eu apenas não notava. Mas interagir com outros seres humanos tem exigido, nos últimos tempos, um esforço intelectual e físico enormes. Há uma culpa, um autocobrança tão gigante em ser menos pessimista, menos dramática, menos intolerante, menos triste, menos raivosa, menos reclamona, menos pedante, menos crítica, menos rancorosa, menos cemitério ambulante. Mas eu só… Não consigo. Ou não quero (sabe-se lá o que está nas profundezas da minha alma, soterrado sob toneladas de negação, terapias ruins, automedicação e cansaço). 

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E não, não é fácil. Murcho perto de tanta vitalidade ao redor. Está cada vez mais escassa, em mim, a habilidade de falar com estranhos. Sumiram as piadas e anedotas. E reconheço que não sobrou em nenhuma das minhas células o savoir-faire que brota de dentro de todos os seres humanos, especialmente dos heróis, para lidar com os dilemas da vida sem perder o sorriso no rosto. Não é tédio, é exaustão. É como sair de uma sala onde a música estava muito alta, as luzes muito fortes, e sua cabeça só ouve um zumbido desagradável. A vida em um mosteiro, cumprindo votos como uma carmelita descalça e muda me parece o melhor dos mundos. Aliás, qualquer versão desconectada e isolada é sinônimo de paraíso.

Enfim, é isso. É assim. E amanhã vou pagar uma consulta bem cara com uma nova psiquiatra para buscar ajuda. Isolamento, tristeza persistente, problemas de memória, fadiga, insônia, mudanças bruscas de humor e alta irritabilidade são sintomas clássicos do transtorno depressivo persistente (a antiga distimia). Isto está afetando meu trabalho e minhas relações. Está transformando a vida do meu filho num calvário. E destruindo qualquer chance, a mais remota que seja, de eu voltar a ter uma vida ao menos funcional. Eu preciso do meu cérebro funcionando bem de novo, até para elaborar um plano de fuga da minha atual vida.

E sabe, ter uma doença mental é terrível. Não dá pra mostrar a perna quebrada ou a ultrassom do fígado inchado. Sempre terá que ouvir, de um bem intencionado, alguma lição sobre força de vontade, volta por cima e lidar com o resultado das próprias escolhas. Mas enfim, é assim que vou equilibrando, dentro do possível, aquilo que eu posso e quero dar, e aquilo que posso e quero receber. Aproveito pra deixar aqui o link de uma entrevista maravilhosa, no site do Dr. Drauzio Varella, com o médico e psiquiatra Táki Cordás. Quando li, tudo acendeu dentro de mim.

Até a próxima!

 

Entre o que eu quero receber e o que você quer me dar (e vice-versa)

Kid Vigarista e Rabugento

Já rcomentei que mudei de casa de novo? Pois então, mudei. A terceira mudança em menos de dois anos. As caixas que trouxe de lá e foram parar ali, agora estão aqui. Eu, o menino e a cadela continuamos a jornada. O Santander tem um pouco a ver com essa história (nos incentivando, sempre, rumo ao precipício). Mas enfim, cá estamos no limbo. Comigo repetindo obsessivamente: “Isso vai passar, isso vai passar, isso vai passar”. Vai, sim. Nada é eterno. Mas não é essa a questão. Quero falar sobre a corrida maluca. 

D806B303-DED2-4524-B321-8F9E60B01A0BEu e o menino estávamos assistindo a um programa de culinária, desses que impulsionam a molecada a fazer faculdade de Gastronomia e ser youtuber (além de morar no Japão, ser adepto do poliamor, assumir os cachos e ser vegano). Enfim, é um programa ótimo e super engraçado (o nome é ‘Mandou Bem’), que mostra gente sem o menor talento tentando copiar trabalho de confeiteiros exímios. E lá pelas tantas, deu uma vontade de comer bolo… Já era mais de 22h. Eu perguntei pro moleque: “Vamos ver se a padaria está aberta?”. Ele topou na hora. E não estava. O que fazer?

Lembrei que existia uma farmácia nas proximidades (o Patz me faz rastrear estabelecimentos dessa natureza com uma precisão da Nasa…). “Filho meu, fruto do meu ventre, vamos à drogaria e compremos um picolé!”. Meu intrépido acompanhante, esfomeada e saudoso de açúcar, aceitou. E lá fomos. E só encontramos absorventes, xampus, drogas legais e barras de cereais. Bateu o desespero…

E eis que olhamos para o outro lado da avenida e vimos, lustroso e chamativo, um Bob’s. Catei o guri e corremos para a loja, que não tem bolo (nem tortinhas de banana ou maçã). Mas não dá para ter tudo, né? Pedimos dois combos infantis, que vieram com dois brindes fuleiros (as miniaturas dos personagens desconhecidos pelo meu filho) e a opção de repormos os molhos até explodir. Foi ótimo. Na volta pra casa, cai um aguaceiro e o meu filho realiza o sonho de tomar um banho de chuva. E escancara a boca, pensando estar num desafio, e pede aos motoristas que nos deem um banho de lama (aí eu tive que intervir).

Me senti bem como não me sinto há um ano…

São coisas assim que me ajudam a prosseguir. Não tenho como competir com o pai do meu filho (que quer levá-lo pra Disney, deu X-Box, pode entupi-lo de coisas enquanto eu mal consigo pagar o aluguel). Não tenho como desfazer todos os traumas que imprimi de forma indelével na personalidade dessa criança (toda loucura que ele testemunhou). Não tenho como evitar que um dia, quando ele ouvir falar de Antígona (presa numa caverna apenas com o pão de cada dia), relembre da própria mãe. Ou quando assistir o filme Running with Scissors, pense que é um vídeo sobre a própria história (tirando a parte do guru e outros 80% do filme). 

Só posso esperar que ele também mantenha em algum canto do cérebro esse dia de chuva. E que rememore as próprias palavras: “Vou manter o Kid Vigarista e o Rabugento aqui, nessa prateleira, para lembrar dessa aventura”. Isso foi ontem. E sendo realista, ele já esqueceu, entretido que está com o Felipe Neto e com o Porta dos Fundos. Maravilhado que anda com os novos amigos. Mas eu PRECISO lembrar desse episódio, por isso registro aqui, pois pressinto, inclusive, que esse papel (de mãe a quem tudo se perdoa pois existe o amor incondicional) está com os dias contados. Para o meu horror e alívio. Afinal, nada é eterno.

Até a próxima!

Kid Vigarista e Rabugento

Kintsugi

Quando eu te liguei em um dia muito difícil, sete anos atrás, falando sobre uma descoberta terrível (o começo do fim do meu casamento), você me ouviu. Me acalmou. Me contou, também, uma história difícil que havia enfrentado. Nos apoiamos. Você já sabia tanta coisa sobre mim, até ouviu o coração do meu pequeno bater na minha barriga. E eu também comemorei suas vitórias. E chorei suas dores. E tomei seu partido. E nunca te invejei ou senti pena. Sua humanidade só me acalmava, me aproximava da fé. Você me disse coisas duras e ouviu umas tantas de mim. E da mesma forma como agi com o ex, talvez tenha me sentido confortável demais e tenha achado que o que nós tínhamos era… especial? Que você não sentiria o fardo tão pesado de me carregar, pois a nossa ligação vinha de outro mundo (aquele que não acredito que exista). Para todos que nos conhecem, sempre garanti: ele é meu irmão. Quando pedi que escolhesse, como o guarda nazista pede à Sophia que escolha com qual dos filhos deve ficar para não perder a ambos, você me escolheu. Você. Me. Escolheu. Mas até irmãos se desencontram. 

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Hoje, li no Facebook que você está indo embora. Vai em busca de vencer novos desafios. Você? E eu não sabia de nada? No dia anterior mandei uma mensagem dizendo que mudei de casa (de novo). Tive vontade de te ligar, mas andamos tão estranhos, que resolvi não incomodar. Não tenho sido a melhor das companhias (há anos). E tenho chorado muito. E você não precisava de tudo isso. De novo. A parte que mais gosto (gostava) em você é (era) a capacidade de ouvir. Não que você não julgasse, pois sempre o fez (mesmo nas suas fases personagens de novela, Chico Xavier, terapeuta holístico). Mas você também foi e é muito generoso. Do tipo que capaz de atos heróicos, resgates dramáticos. E é teimoso. E bom. Você queria um agradecimento só para você, porque, de fato, mereceu. E aqui está: muito, muito, muito obrigada pelo que investiu em nós e fez por mim. Deveria ter dado um abraço de ano novo, de aniversário, de reconhecimento. Não o fiz. E mesma que o faça, ainda, não será mais no momento que deveria ter sido.

Só quero que sinta o meu amor. E o meu pesar por você ter partido sem me dizer. E que quero o seu melhor. Um dia, quem sabe, voltamos a caminhar na mesma estrada. Se não,  saiba que foi muito bom e muito ruim (em alguns momentos), tão imperfeito quanto nós. E que não me arrependo de nada. E espero que você também não…

 

Kintsugi

Após um casamento… Um funeral.

Desde a morte do meu pai, há sete anos, nunca mais tinha visto um cadáver. Tinha esquecido a cor estranha que a pele assume, da aparência irreal de um corpo sem vida. Esqueci do cheiro ruim que as flores têm em despedidas e de como o cetim e o voal ficam sombrios. Hoje, fui levar uma coroa de flores ao velório da mãe de um colega de trabalho. Ainda estou me sentindo estranha. Ver a dor de uma família, especialmente por uma idosa doente – alguém, nos dias de hoje, socialmente irrelevante -, desconcertou-me. Eu, que tenho lido e lamentado tanto o meu luto, me deparei com a prova real da morte: uma pessoa que não é mais.

adeus_dona_rita.jpgPrimeiro, no grupo do WhatsApp, veio a informação sobre o falecimento após uma longa estadia em uma U.T.I. As expressões de condolência entre as pessoas muito ocupadas (o colega não está no grupo) foram poucas. Sugeri que enviássemos, ao menos, uma coroa de flores em tributo à memória de uma mulher que criou tão bem um menino (filho, inclusive, adotado). É o mínimo que se pode fazer pelos vivos… Quem conseguiu ler a mensagem concordou. Não foram muitos. Mas levei a tarefa à frente. Parei tudo e fui em busca das flores (saber preço, tamanho, que pode imprimir uma mensagem, que fica mais barato entregar pessoalmente do que mandar por terceiros). Comprei.

O velório tinha hora marcada: 16h. Chegamos, eu e o motorista do órgão no qual estou de passagem, pensando que deixaríamos a expressão de respeito na capela e sairíamos. Mas não foi assim… A única filha biológica, três amigas idosas, os dois filhos adotivos e a nora já estavam lá. Entregamos as flores e eu simplesmente não sabia o que dizer. O que dizer a alguém que perdeu a mãe? O que dizer para amparar tanta tristeza? Falei uma série de bobagens, sobre os filhos serem testemunho da obra de uma boa mãe, sobre ela estar em paz, enfim, falei em milésimos de segundos um borbotão de palavras constrangidas e fugi. No carro, me dei conta do tamanho daquilo para aquela família. Pensei na minha mãe tão frágil. Pensei no meu filho, que se despedaça ao testemunhar a tristeza da própria mãe. E de tudo que sei e sinto, nada serviu para esse momento.

Enquanto isso, o WhatsApp não parou de funcionar. O Facebook não deixava de carregar os relatos do cotidiano do povo. Bolsonaro ainda é presidente, assim como Trump, o Duterte, o Maduro (ou Guaidó?) e outros da mesma laia. Povos continuam buscando refúgio em terras prometidas que não existem. O Caio, tão jovem, também morreu. E o telemarketing não parou de me ligar. E as dívidas não pararam de ser cobradas. As pessoas não cessaram o riso, a pressa, a superficialidade, a vaidade, a fome, a alienação, a paixão, o fervor, o incômodo de existir, enfim, tudo e todos continuam… Apenas mais uma mãe morreu, pois mães também nascem e morrem diariamente.

E nesse momento, só quero ir pra casa abraçar o meu filho, a minha cadela, mandar pensamentos de amor para quem eu amo, de perdão para quem eu não amo, e continuar. E em memória de dona Rita, eu republico um dos meus poemas preferidos, o Funeral Blues (do Auden). E vou me permitir chorar em casa, no banheiro, por todos que ficamos aqui…

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message ‘He is Dead’.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.

April 1936
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Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

(tradução de Nelson Ascher)

Após um casamento… Um funeral.

Casamentos e pontos de vista

Nesta quinta-feira, por volta das 11h30, enquanto estava no trabalho, recebi a ligação do meu irmão mais velho:

– Ei, vou passar por aí para te pegar, ok?

E eu, mentalmente, soletro: ‘Ca-ce-te’. E respondo rapidamente, fingindo que lembrava:

– Claro, estou te esperando.

bolo_casamento_amor
E foi chance de ver de perto esse lindo bolo (e de comê-lo!).

Havia esquecido completamente que ao meio-dia almoçaríamos – as famílias do noivo e noiva – para celebrar o casamento do big brother.

É o segundo enlace do moço (prestes a completar 60 anos) e o primeiro da moça (hoje com 32).

Minha aparência era das piores. Olheiras, raiz do cabelo esbranquiçada, sem maquiagem nenhuma, com roupas velhas e escrito, na cara, ‘ainda estou na chon’.

Já a minha mãe, meus irmãos (só faltou o ‘ovelha negra’, que é um babaca), minhas sobrinhas fofas, alguns amigos e familiares da noiva, estavam lindos. Felicidade cai muito bem.

Meu filho não foi, pois era dia de ficar com o avós (que não o viam há semanas porque estavam viajando pelo mundo). E, sinceramente, faltou porque a mãe-irmã-cunhada desnaturada esqueceu do casamento…

A noiva, meu Deus, parecia uma deusa (cintura fina, radiante em um lindo vestido de linho, tomara-que-caia, equilibrado nos seios que obviamente são à prova da lei da gravidade). E com um sorriso, Senhor, que sorriso.

Meu irmão mais velho, vestido com uma calça jeans e uma camisa polo branca, é um herói meio torto. Daqueles cuja saga renderia uma novela da Globo/Televisa. O cara sobreviveu a uma plataforma petrolífera que explodiu e a um casamento de mais de 30 anos no qual, nos últimos dez anos de vida em comum, só pensava em morrer.

Eu fiquei feliz pelo encontro desse noivo e dessa noiva. Pela decisão pensada e repensada de duas pessoas que sofreram muito e, agora, só querem cuidar uma da outra.

Eu chorei intimamente pela minha ex-cunhada, que, como eu, também se perdeu no tempo. Que esperou o ex-marido (e talvez ainda espere) como uma viúva sem cadáver. E sempre, sempre, repito isso sem dor na consciência, é mais fácil para os homens partir…

E falando em casamento, o ex fará uma cerimônia e uma festa para casar com o parceiro em fevereiro. Fiquei sabendo da notícia através do advogado que contratei (algum tempo depois) para rever algumas questões do acordo do divórcio. Não pedi o informe, mas ele veio. Na hora, não significou nada. Depois, fiquei ruminando e comecei a sentir inveja.

Pensei, mais uma vez, sobre como tudo parece dar certo para ele e aquele lenga-lenga insuportável da hiena Harvey (Oh, vida. Oh, Céus…).

Depois, parei e lembrei de todas as sincronicidades da minha vida. Da oportunidade de vivenciar os mais variados lados das questões que se manifesta na minha jornada (prova disse é este meu post: ‘Quatro mulheres e um destino’).

E me dei conta: eu estou me curando. Aos pouquinhos, é verdade, mas estou. E sou eu. Do meu jeito. No meu tempo. Acertando e errando nos remédios. Apostando e duvidando das coisas. Acreditando e desacreditando da caminhada. Sozinha. Mas apenas ainda.

Que meu irmão seja feliz. E que o ex também seja. E que o mundo se cure e se ame, pois, no fundo, é só isso o que importa.

Até a próxima!

Casamentos e pontos de vista